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| Augusto Severo, o mártir a ser lembrado amanhã, e... |
O Rio Grande do Norte resolveu mesmo
esquecer seus filhos mais ilustres, cujas personalidades deveriam estar sendo
sempre apresentadas aos demais conterrâneos como exemplos e modelos a nortear
caminhos. A mais recente demonstração deste esforço de perda de cultura é o 113°
aniversário de falecimento do aviador Augusto Severo de Albuquerque Maranhão,
um dos mais respeitados mártires da história da aviação.
Ele transcorrerá nesta terça-feira, 12,
amanhã, e nos meios de comunicação locais não vê notícia de qualquer preparação
de evento para registrá-lo como iniciativa dos poderes constituídos. Quem está
organizando um momento em sua homenagem é um grupo de admiradores capitaneado
pelo advogado e empresário Augusto Maranhão, historiador que integra a família
de Severo e cuja fisionomia, na opinião de amigos, lembra muito a deste.
Por sua iniciativa, alguns natalenses se
reunirão às 15h30m de amanhã diante do busto de Severo chantado na praça que
recebeu seu nome ainda nos anos quarenta, na Ribeira, para ser substituído há
pouco tempo numa iniciativa do prefeito Carlos Eduardo Alves, para quem o local
deve oficialmente ser chamado de “Largo Dom Bosco”. No mesmo local, até alguns
anos atrás, os poderes públicos promoviam grandes eventos populares para
enaltecer a história de Severo.
Três
mortes
Na visão de Augusto Maranhão, Augusto Severo
é um potiguar que morreu pelo menos duas vezes. A primeira foi na explosão de
seu balão, o “Pax”, em Paris, há 113 anos, quando também perdeu a vida seu
companheiro de invenções e experiências aéreas, o mecânico de bordo francês Georges
Sachet, nome de rua na Ribeira, também em Natal. A segunda foi em 2014, quando
a inauguração, em São Gonçalo do Amarante, do aeroporto internacional Aluizio
Alves desativou em Parnamirim o Augusto Severo, cenário e testemunha das muitas
contribuições que o Rio Grande do Norte emprestou ao avanço da aeronáutica.
Uma terceira morte ocorre em Macaíba,
cidade onde Severo nasceu e cuja prefeitura não procura realimentar sua memória
entre os munícipes.
Engenharia
avançada
Além de aeronauta, Augusto Severo,
nascido a 11 de janeiro de 1864, foi jornalista, inventor e político, chegando
a representar o Rio Grande do Norte na câmara dos deputados da primeira
república. Oitavo dos quatorze filhos do pernambucano Amaro Barreto de
Albuquerque Maranhão (1827-1896) e da paraibana Feliciana Maria da Silva de
Albuquerque Maranhão, realizou seus estudos primários em Macaíba e os
secundários no Colégio Abílio César Borges, em Salvador, Bahia. Em 1880, viajou
para o Rio de Janeiro, então capital do Império, e iniciou seus estudos de
engenharia na Escola Politécnica.
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| ...o dirigível "Pax", no qual perdeu a vida. |
Motivado pelos trabalhos em aerostação
do inventor paraense Júlio César Ribeiro de Souza, que apresentou um projeto de
dirigível ao Instituto Politécnico Brasileiro em 1881, Severo passou a se
interessar pelo vôo, realizando observação de aves planadoras e construindo
pequenos modelos de pipas, uma das quais denominou “Albatroz”. Em 1882, passou
a lecionar matemática no Ginásio Norte Riograndense, de propriedade de seu
irmão Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, acumulando a função de vice-diretor.
No ano seguinte o ginásio foi fechado e Severo dedicou-se ao comércio, primeiro
como guarda-livros da empresa Guararapes e mais tarde, seguindo os conselhos de
seu irmão Adelino, associou-se à firma A. Maranhão & Cia. Importadora e
Exportadora, onde ficou até 1892.
Inventos
Em 1888, casou-se com a pernambucana
Maria Amélia Teixeira de Araújo, com quem teve cinco filhos. No ano seguinte
passou a escrever artigos para o jornal “A República”, periódico antimonárquico
fundado irmão Pedro Velho, e projetou um dirigível que incorporava idéias
revolucionárias, o “Potyguarania”, que, porém, nunca chegou a ser construído.
Em outubro de 1892, ouvida a opinião
favorável de professores da Escola Politécnica, o Governo concedeu um auxílio
pecuniário para que Severo pudesse mandar fazer na Europa um aeróstato
dirigível de sua invenção que incorporava as idéias que havia desenvolvido
anteriormente. A esse aeróstato deu o nome de Bartholomeu de Gusmão, em
homenagem ao inventor brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão, que apresentou
em 1709, diante da corte portuguesa, um pequeno balão de ar quente.
O dirigível “Bartolomeu de Gusmão”
introduzia um conceito novo. Era um aparelho semi-rígido, em que o grupo
propulsor estava integrado ao invólucro através de uma complexa estrutura
trapeizodal em treliça. O invólucro foi encomendado à Casa Lachambre, a
principal firma de Paris especializada na construção de balões.
Em 19 de abril de 1896, no Rio de
Janeiro, pediu patente para um “turbo-motor com expansões múltiplas e
continuadas”, concedida no dia seguinte, às 12h40min (n 2.940). Em 20 de
outubro desse ano sua mulher faleceu, após o que Severo iniciou um relacionamento
amoroso com Natália de Siqueira Cossini, de origem italiana, com a qual teria
dois filhos.
Em 27 de julho de 1899, no Rio de
Janeiro, Severo patenteou um novo balão dirigível, o “Paz”, cujo nome foi posteriormente
latinizado para “Pax”. Em 23 de julho de 1901, registrou a patente de uma “máquina
a vapor rotativa e reversível”, com a qual os navios poderiam atingir
velocidades maiores.
Custeou
tudo
Em fins de 1901, Severo licenciou-se de
seu mandato de Deputado Federal para se dedicar à construção do “Pax”. No novo
dirigível, que era um desenvolvimento do “Bartholomeu de Gusmão”, Severo
introduziu uma grande quantidade de inovações: abandonou o leme de direção e
introduziu ao todo sete hélices: uma na popa, outra na proa, outra na barquinha
e quatro laterais. Manteve a sua idéia de fazer uma aeronave integrando a
quilha que levava os tripulantes e o grupo motor ao balão.
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| Augusto Maranhão (de branco): Severo morreu três vezes. |
Sem ter conseguido qualquer auxílio
externo, Severo teve que assumir toda a despesa para a construção do “Pax”.
Pretendia usar motores elétricos, mas a falta de recursos e de tempo fez com
que ele optasse por dois motores a petróleo tipo Buchet, um com 24 cv e o outro
com 16cv. O invólucro tinha a capacidade de 2.500m3 de hidrogênio, com trinta
metros de comprimento e doze no maior diâmetro. O aparelho pesava cerca de duas
toneladas. Os ensaios foram realizados nos dias 4 e 7 de maio de 1902 com
sucesso.
Morte
No dia 12 de maio de 1902, tendo Sachet
e Severo a bordo, o “Pax” iniciou seu voo às 05h30min, saindo da estação de
Vaugirard, Paris. Elevou-se rapidamente atingindo cerca de quatrocentos metros
de altura. Realizou diversas evoluções que mostraram aos inúmeros espectadores
que as idéias de Severo estavam corretas. Cerca de dez minutos após o início do
vôo, porém, o “Pax” explodiu violentamente, projetando os dois tripulantes para
o solo. Severo e Sachet morreram na queda. Os restos do dirigível caíram na
Avenida du Maine, Paris, diante de uma grande multidão que seguia com interesse
a demonstração.
A catástrofe do “Pax” teve um impacto
enorme. Natália, que assistiu à queda, não se recuperou e, após retornar ao
Brasil, suicidou-se com um tiro no coração em 23 de junho de 1908, aos trinta
anos de idade. A tragédia não ofuscou o avanço científico das propostas do
pioneiro potiguar: aconfiguração proposta por Severo, de um dirigível semi-rígido,
foi revolucionária e influenciou o desenvolvimento dos dirigíveis nas décadas
seguintes.
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