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| Os cerca de duzentos educandos atendidos pela Casa da Criança são os beneficiários diretos... |
Sem haver necessitado, ao longo
de seus mais de cinqüenta anos de atividades profissionais, de alguma receita
que não constasse em seu contra-cheque habitual, um professor natalense resolveu
se abster de uma renda que excepcionalmente deveria chegar a seus bolsos para
assim ajudar a evitar o fechamento de uma tradicional casa benemerente de
Natal, que enfrenta duríssimas dificuldades e tende a cerrar suas portas se não
cor contempladas com iniciativas semelhantes, principalmente por parte dos
poderes públicos.
Trata-se da Casa da Criança de
Morro Branco, instituição situada na esquina das avenidas Rui Barbosa e
Bernardo Vieira, por trás do Centro Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
(Ifern, antiga Etfern). O benemérito é o pedagogo ValdirAntunes de Sousa Filho,
68 anos, aposentado como professor da Universidade Federal (UFRN).
Acabando esta semana de estrear
como protagonista de sessão de autógrafos, ao tomar conhecimento da crise que
arrasa o estabelecimento Valdir resolver doar-lhe todo o resultado do
lançamento de seus dois livros de estréia, que lançou na noite da última
terça-feira, 2, anteontem.
Palavras de amor
Quando tomou a decisão de
destinar a renda dos livros à instituição Valdir mal havia estabelecido com os
editores os parâmetros para a fixação do valor unitário com que cada volume
chegaria ao mercado editorial. Tomada esta decisão, ele anunciou que nem
procuraria se ressarcir do que investiu, do próprio bolso, na impressão dos
volumes, endereçando o produto ao estabelecimento, que é administrado por
freiras católicas.
Valdir custeou sozinho também sua
estréia como fazedor de autógrafo, promovendo o evento na área livre do
condomínio em que reside, na Rui Barbosa, perto da Casa da Criança. Segundo
ele, “Nossa Missão – Uma palavra de amor semeada ao vento”, constituído por reflexões,
textos de diversos estilos, todos pensados para melhorar a atitude dos leitores
diante de quaisquer situações, e “Palavras que perpetuam”, poesias, haverão de
marcar uma mudança na postura de natalenses diante de uma casa que precise de
apoio para beneficiar crianças carentes.
Vendas na Casa da Criança
Estabecer o liame entre sua
produção intelectual e a Casa da Criança de Morro Branco, não foi difícil para Valdir,
que mora perto da instituição e na adolescência, quando sua família residia na
avenida Prudente de Morais, em Tirol, estudou no Seminário São Pedro pensando
em efetivamente se ordenar como ministro a serviço da Igreja Católica.
Para fortalecer esse vínculo, ele
decidiu que, pelo menos por enquanto, a sede da instituição será o único ponto
de venda dos volumes. Ele se reservou poucas dezenas para doações a
instituições também carentes e já depositou os destinados à venda na Casa da
Criança.
Doações
Também conhecida como Escola
Ambulatório Padre João Maria, a Casa da Criança, que se aproxima da sétima
década de existência, é uma entidade filantrópica dirigida pela Congregação das
Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, que se dedica à educação infantil.
Funcionou inicialmente como
creche e orfanato, sempre no bairro de Morro Branco, recebendo, alimentando e
educando crianças pobres, sendo algumas de famílias carentes das redondezas,
acolhidas para que os pais pudessem trabalhar. Acolheu muitas outras que
estavam abandonadas. Estas eram então trazidas aos braços da Irmã Lúcia
Montenegro, a primeira diretora do estabelecimento.
Sustentando-se através de doações
ao longo de suas atividades, a Casa da Criança esteve atenta não somente às necessidades
das crianças que ali chegavam, mas estendeu seus cuidados aos familiares dessas
crianças e manteve suas portas sempre abertas à comunidade do seu entorno e de
toda Natal.
Apoio governamental
Construiu bases sólidas em sua
dedicação à educação infantil e na assistência aos moradores do bairro, o que
levou suas atividades a serem consideradas como complementares ao trabalho do
Estado e do Município, ocasião em que passou a integrar as entidades
favorecidas pelo recebimento de verbas federais e municipais. Uma dessas fontes
é o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), do governo
federal, que repassa recursos aos Estados e Municípios para manutenção e
desenvolvimento da educação básica pública.
A secretaria municipal de
Educação, através do Programa Pré-Escola para Todos (PPET), também distribui
recursos para escolas de regiões da cidade onde não há vagas nos Centros
Municipais de Educação Infantil, os chamados Cmeis. Diante da grande demanda de
alunos, escolas filantrópicas passaram a complementar tais atividades,
recebendo benefícios do Programa. A Casa da Criança é uma das quatro escolas
escolhidas pela secretaria municipal de Educação para assumir esta
responsabilidade.
Além disso, a Casa da Criança recebeu,
em 1997, a proposta de realização de um contrato de comodato com o governo do
Estado. Através desse contrato, ela cedeu parte de seu prédio para a rede estadual
de educação, que passou a se responsabilizar pela manutenção da estrutura
física e pela gestão das atividades de ensino ali realizadas.
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| ...do resultado da venda dos dois livros de Valdir (centro). |
Dessa forma, o ensino infantil
continuou sendo de responsabilidade da Casa da Criança – que chegou a abrigar
duzentas crianças, divididas entre período parcial, de quatro horas, e integral,
de oito. O ensino fundamental, do primeiro ao quinto ano, foi então assumido
pela Escola Estadual Ambulatório Padre João Maria, que abriga hoje 320 alunos,
fazendo parte da Rede Estadual de Educação.
Verbas sumiram
As dificuldades que apertam hoje
a Casa da Criança decorrem do fato de os convênios com a administração pública
não terem sido renovados junto à prefeitura em virtude da falta do “Atestado de
Vistoria do Corpo de Bombeiros”, o AVCB. Desde janeiro de 2013, a Casa da
Criança não recebe o repasse das verbas públicas, indispensáveis para a
manutenção da escola filantrópica.
O não repasse das verbas atingiu
diretamente dezessete pessoas, entre professores e funcionários da Casa da
Criança, que estão há muitos meses sem receber salários, e responde pelo
fechamento gradativo de salas de aula do estabelecimento.
Para amenizar as imensas
dificuldades enfrentadas por essas pessoas que, mesmo sem remuneração,
resistiram e decidiram permanecer em suas atividades, a Casa tem promovido
rifas, bazares, chás, além de receber doações daqueles que ajudam como podem.
Somando esforços, a Casa da Criança conseguiu efetuar o pagamento dos encargos
sociais de seus funcionários e professores, bem como os salários de julho a
setembro de 2013, suas férias e 13º salário. Porém, a Casa ainda deve os
salários de outubro a dezembro de 2013, bem como os vencimentos referentes ao
ano corrente.
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| Irmã Benedita, a diretora: contando moedas para compartilhar com os funcionários e atender às crianças. |
“O dinheiro que estamos
conseguindo juntar atualmente está sendo dividido por todos os funcionários e
professores, qualquer que seja a quantia, mas muitas vezes temos que priorizar
os aluguéis atrasados de um professor que está ameaçado de despejo ou evitar
que a energia de um funcionário com quatro filhos seja cortada. Estamos
passando por uma situação extremamente preocupante, que não sei até quando
poderemos sustentar”, afirmou Irmã Benedita Loz dos Santos, diretora da escola.
Para conseguirem o documento em
que o Corpo de Bombeiros certificaria que a edificação possui as condições de
segurança contra incêndio prevista pela legislação e, consequentemente, renovar
os convênios com a prefeitura, a Casa da Criança precisa adquirir equipamentos
de segurança e realizar reformas em sua estrutura. A exigência está ligada a o “Memorial
Descritivo de Proteção Contra Incêndio” expedido pelo Corpo de Bombeiros.
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