sábado, 6 de junho de 2015

RN pode perder a única cadeia que recupera preso

A Apac está na iminência de fechar a unidade local porque não consegue sensibilizar Robinson Faria, sua esposa, Julianne, e Edilson França para a idéia de investir em cadeias que comprovadamente reinserem os apenados no mundo da liberdade.
----------------
Cleber: por falta de apoio, a Apac de Macau
está ameaçada de ser fechada.
A única cadeia objetivamente voltada para a ressocialização dos apenados está ameaçada de ser fechada a qualquer momento em decorrência da falta de apoio do governo do Estado. A advertência foi feita neste sábado, 6, hoje, em Natal, pelo principal porta-voz da instituição que mantém a unidade prisional, o bancário aposentado e advogado Cleber Pinheiro Costa, que há poucos dias tomou posse em Brasília como membro do Conselho Nacional de Segurança.
Sua preocupação é compartilhada com o jornalista Jomar Morais. Um dos mais conceituados profissionais da área em Natal, onde também se destaca como doutrinador espírita, Jomar é o único periodista que procurou objetivamente conhecer o método utilizado na cadeia ameaçada de fechamento e compará-lo com a desumanidade reinante nos demais estabelecimentos penais potiguares.
Cleber e Jomar falaram ao Blog de Roberto Guedes pouco depois de saber que nova fuga foi empreendida na penitenciária “de segurança máxima de Alcaçus”, onde a seu ver a desumanidade institucionalizada força o condenado a tentar exatamente voltar à liberdade como puder, a qualquer preço e sem estar ressocializado e, consequentemente, representando novo grande perigo para a segurança da população.
Macau
Alcaçuz, porém, está apenas atingido por uma interdição judicial, não necessariamente condenado ao fechamento que preocupa Cleber e Jomar. O estabelecimento que enfrenta a ameaça de fechamento é a única unidade potiguar da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade que surgiu e se desenvolveu há anos no centro-sul do país e vem se espalhando por todo o território nacional graças à apresentação de resultados na recuperação dos apenados.
Trata-se de uma cadeia sediada em Macau, único município potiguar cuja prefeitura se animou a atrair a rede Apac para seu território. Ela tem sido elogiada por dirigentes do Tribunal de Justiça potiguar em virtude dos resultados que alcança em termos de reinserir os apenados na sociedade livre.
Para começo de conversa, nesta cadeia “preso” tem outro nome. Não é nem “apenado”, como ensina o direito. É “recuperando”, como salienta Jomar Morais. Esse tipo de cadeia só progride se receber efetivo apoio das autoridades e da população. Expoentes da sociedade civil de Macau participam ativamente da vida na Apac local, conferindo seu desempenho e agregando valor para seu sucesso.
Apesar deste avanço, a cadeia macauense está à míngua devido à sonegação de apoio pelo executivo potiguar.
Terra do “Já teve”
Há poucos dias, a direção nacional da rede Apac comunicou a Cleber a determinação de fechar a unidade por falta de apoio, e a decisão ainda não se consumou ainda graças a gestões que os voluntários potiguares da instituição desenvolvem com o objetivo de também quanto a isto não deixarem o Rio Grande do Norte se consolidar como a “terra do já teve”.
A Apac de Macau é a pioneira da rede em todo o Nordeste brasileiro. Mesmo assim, enquanto aqui o governo estadual não quer lidar com a rede, no vizinho Ceará a situação é outra. Ainda esta semana o executivo mandou a vice-governadora Maria Izolda Cela de Arruda Coelho e alguns secretários de Estado à sede central da rede Apac, em Itaúna, Minas Gerais, para conhecer o sistema e garantir seu apoio à instalação da sua primeira unidade no território cearense.
Orientadas por uma associação nacional, as Apacs estaduais são inspiração do advogado e professor paulista Mário Ottoboni. Constituem pessoas jurídicas de Direito Privado que administram centros de reintegração social de presos, como frisa.
Segundo Cleber, o envio do estafe do governo cearense a Itaúna secunda uma etapa em que a interação entre ele e a Apac já produziu efeitos. A unidade da Apac no Ceará será instalada no Complexo Penal Paulo Sarazate, em Fortaleza, onde o governo já realiza obras visando preparar as instalações físicas conforme o modelo da Apac.
Sensibilizar o governo
Do alto de sua experiência de vários anos de destacada participação na Pastoral Carcerária potiguar, Cleber menciona voluntários natalenses que vêem com muita simpatia o projeto Apac. É o caso do natalense Jomar Morais. No ano passado, ele resolveu ficar preso uma semana numa cadeia da Apac em Minas Gerais. Voltou de lá tão entusiasmado que passou a defender o modelo da Apac em sua coluna semanal no diário matutino “Novo Jornal”, de Natal.
Apesar do empenho e da credibilidade desses divulgadores, quem mais precisa ser sensibilizado a respeito não emite o menor sinal de estar se sensibilizando pela real possibilidade de ressocializar os apenados. 
Cleber diz que seria ótimo que o governador Robinson Faria e os secretários estaduais de Trabalho e Bem Estar Social, advogada Julianne Faria, também primeira dama do Estado, e de Justiça e Cidadania, professor Edilson França, aceitassem pelo menos conhecer o projeto Apac.
Metástase
“Melhor ainda seria seguir a iniciativa cearense”, avança Cleber, acrescentando que o ideal seria objetivar a implantação de uma grande unidade vinculada à filosofia da entidade na região metropolitana potiguar. Esta meta é defendida por desembargadores e agentes do ministério público estadual e tende a ser abraçada pelo Conselho Penitenciário, estadual, com cuja cúpula Cleber iniciou uma aproximação estes dias.
Lamentavelmente, entretanto, diz, o executivo se mostra impermeável a uma proposta que poderia contribuir decisivamente para minimizar a crise amargada pelo sistema prisional do Rio Grande do Norte. Depois de a população se atemorizar com várias fugas coletivas de alguns motins de apenados de Alcaçus, a maior unidade prisional do Estado, o agravamento da situação foi cruamente exposto há poucos dias quando a justiça decretou a interdição deste e de outros quatro estabelecimentos congêneres, os principais desta unidade federativa. 
“O sistema atual está falido”, diagnostica. “Já está com metástase”, diz.
Cleber acredita que uma convergência de interesses divorciados do bem estar da população potiguar retroalimenta a crise, agravando-a mais e mais:
“Esse caos traz resultados financeiros para alguém”, adverte, aludindo a empresas privadas que interagem com a estrutura prisional no Rio Grande do Norte, a exemplo do que se vêm em praticamente todos os outros estados brasileiros.
Sem polícia
Jomar, com um dos recuperandos da Apac
de Macau: antídoto contra o pântano que desumaniza.
De modo geral, os estabelecimentos da rede Apac são caracterizados pelo fato de os próprios apenados cuidarem das prisões. Eles têm a chave do presídio e as fugas atingem números desprezíveis. Marcadas pela ausência de agentes carcerários governamentais e celas fechadas a cadeado, estas unidades só recebem apenados que se submetam ao projeto e processo educativos da entidade. Sem serem creches ou parques de diversões, como salienta Cleber, elas desenvolvem a conscientização e a responsabilidade nos moradores.
“Enquanto esta rede se expande em todo o país, no Rio Grande do Norte a Apac sofre há seis anos lutando com unidade precária em Macau”, deplora Cleber, salientando que não singulariza a gestão atual como única a virar as costas à experiência da entidade voltada para a efetiva ressocialização dos presos.
“Nesses anos todos, nenhum governo deitou seu olhar para a experiência da Apac em Macau”, lamenta, salientando que se o executivo topasse com toda certeza o Tribunal de Justiça potiguar adotaria em escala maior o modelo que tem proporcionado ótimos resultados em Minas Gerais. 
Ele se refere ao “Programa Novos Rumos na Execução Penal”, que foi criado no ano de 2001 pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, buscando a humanização no cumprimento das penas privativas de liberdade mediante a aplicação do método Apac.
Pântano
O diferencial é exatamente a tentativa de humanização, como salienta Jomar Morais:
A população de Macau interage diretamente com a vida no estabelecimento
penal, ajudando-o a lutar pela ressocialização dos apenados, ali
tratados como "recuperandos", e não como "presos".
 
“A crença básica da Apac é o que falta ao falido sistema penitenciário oficial, espécie de ‘geena’ dos tempos bíblicos para onde a sociedade tem enviado os seus novos ‘leprosos’, na ilusão de que a segregação pura e simples é vacina contra o mal. Não é culpa da lei que, aperfeiçoada, aponta princípios e meios que garantem à pena as suas funções ressocializadora do indivíduo e retributiva da sociedade lesada. É fruto do desvio da melhor prática do direito e mesmo dos rudimentos da justiça, sob a ação de uma cadeia corruptora que permeia todos os segmentos do sistema prisional e vai além, muito além, de seus limites”, diz.
Para que essa “roda de iniqüidade” continue a girar, prossegue, é imperioso que se mantenha um ambiente de caos permanente e a total descrença na reeducação do homem.
“Afinal, para justificar a queima do dinheiro do contribuinte em projetos faraônicos e inúteis nada melhor que estimular o medo diante de ameaças reais ou imaginárias”, deplora.
Interesses inconfessáveis
Além disso, acrescenta, “para que a roda da iniquidade rode, é necessário azeitá-la, continuamente, com a inclusão de mais colaboradores, dando à prática perversora a capilaridade necessária ao domínio de toda a estrutura”, lamenta Jomar.
Nesse contexto, a crença na recuperação do homem e o resgate de sua dignidade seriam obstáculos intransponíveis aos interesses inconfessáveis”, diagnostica o jornalista, para apontar o melhor caminho:
“A experiência da Apac é uma alternativa concreta ao sistema oficial mergulhado no pântano. Não é, certamente, a única possibilidade. Mas é a que está aí, referendada por números positivos e uma série de resultados só mensuráveis pelos corações que se beneficiaram direta e indiretamente de seu modelo”.
==========================
Siga e recomende o Blog de Roberto Guedes:

http://blogderobertoguedes.blogspot.com.br/     



Nenhum comentário:

Postar um comentário